Produto da farmacêutica Luzitin começou os primeiros ensaios clínicos em doentes com cancro avançado da cabeça e pescoço.
De momento, o nome de código é apenas LUZ11. Mas,
em breve, a farmacêutica portuguesa Luzitin espera que aquele que
poderá ser o primeiro medicamento nacional na área oncológica a chegar
ao mercado receba um nome por parte da Organização Mundial de Saúde. Por
agora, o fármaco reuniu as autorizações necessárias e arrancou já a sua
primeira fase de testes em doentes com cancro da cabeça e pescoço, numa
parceria entre o Instituto Português de Oncologia (IPO) do Porto e a
CUF Porto.
O LUZ11, explicou Luís Almeida ( médico e diretor-geral da Luzitin), começou
na semana passada os ensaios clínicos em humanos, numa fase a que se
chama I/IIa. Nesta etapa, em geral, os medicamentos são testados numa
amostra de voluntários saudáveis. Porém, em casos de fármacos como este,
pelo elevado benefício face ao risco, os testes estão já a ser feitos
em doentes em estado avançados de cancro da cabeça e pescoço e que não
estavam a responder a nenhum dos tratamentos até agora conhecidos. O
medicamento destina-se a vários tipos de tumores sólidos, mas, para
efeitos de ensaio clínico, foram seleccionados os cancros nestas zonas
do corpo.
Ao todo, o
ensaio clínico conta com 20 doentes em fases terminais da doença. “O
composto é administrado no sangue, ou seja, por via intravenosa e
distribui-se pelo organismo do doente. O medicamento por si mesmo não
tem acção. Mas, se for accionado por uma luz de um determinado
comprimento de onda, neste caso luz laser, activa-se e destrói as
células cancerosas no sítio onde a luz incidiu”, adiantou Luís Almeida,
que descreve o fármaco como tendo “elevado potencial de cura”.
O
medicamento actua em combinação com a terapia fotodinâmica, que
demonstrou ser capaz de activar os compostos fotossensíveis para tratar
tumores, aliando-se também com o oxigénio que os próprios tecidos têm e
que consegue destruir as células do tumor e os seus vasos sanguíneos,
para que não receba nutrientes que o alimentem.
O
responsável da farmacêutica portuguesa adiantou que na fase de testes
em animais, em que as doses são muito mais elevadas, o LUZ11 “não causou
efeitos secundários significativos”. Além disso, “como destrói
selectivamente o tumor na zona em que a luz incide, poupa os tecidos
sãos, o que é muito difícil com outros tratamentos”, acrescentou o
também director do ensaio clínico, que tem como investigador principal o
cirurgião oncológico Lúcio Lara Santos, do IPO Porto e CUF Porto.
Em
relação a prazos, Luís Almeida é prudente, mas acredita que no período
de quatro a cinco anos será possível que o medicamento complete todos os
ensaios clínicos e processos necessários e chegue ao mercado. O
arranque de ensaio clínico arranca depois de uma fase de investigação
que decorre há cerca de três anos e meio – altura em que a Luzitin, de
que são accionistas a farmacêutica Bluepharma e a Portugal Ventures,
adquiriu algumas patentes da Universidade de Coimbra, de que fazia parte
o LUZ11. “Esta é a prova de que a universidade traz boa ciência e que
possível transformá-la em bons produtos”, reforçou Sérgio Simões,
presidente do conselho de administração da Luzitin, acrescentando que
acredita que este “medicamento inteligente” terá a vantagem de ser de
fácil utilização, “pelo que terá uma boa relação em termos de
custo-efectividade”.
Em
Portugal surgem todos os anos cerca de 3000 novos casos de cancro da
cabeça e pescoço e morrem, em média, três pessoas por dia com esta
doença, cuja mortalidade é de cerca de 60%. A detecção precoce destes
tumores, que afectam zonas como a cavidade oral, orofaringe, laringe e
hipofaringe, é fundamental para a possibilidade de cura, sendo que o
número de novos casos tem vindo a crescer.
Caroços
no pescoço, dores persistentes na garganta, dificuldade ou dor em
engolir, rouquidão permanente, sangramento da boca ou garganta,
alterações na pele da cara ou do pescoço, feridas que não cicatrizam e
dores de ouvidos sem justificação aparente são alguns dos sinais de
alerta. Estes tumores afectam, sobretudo, pessoas com mais de 40 anos,
do sexo masculino, fumadores e com consumo excessivo de álcool.
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